sábado, 24 de setembro de 2011

Entrevistando: Letícia Massula

Feita de cultura, sentimento e pimenta, Letícia Massula, responsável pela Cozinha da Matilde, em São Paulo, presenteia o blog com sua participação nesta entrevista. Não preciso me alongar, pois suas respostas dizem tudo. Saboreie...

Você tem outras atividades, quando percebeu que a gastronomia faria parte de sua vida?
O que eu me pergunto até hoje é porque que fui fazer direito e ser advogada, rsrsrs. A verdade é que, apesar da gastronomia estar em minha vida desde que me entendo por gente (e talvez por isso mesmo), quando pensei em uma profissão, pensei em algo tradicional e não na cozinha. Cozinhar para mim sempre foi uma atividade cotidiana, natural, eu não enxergava como profissão e sim como uma habilidade a ser compartilhada com os amigos. Até que me dei conta que a vida é muito longa para a gente fazer uma coisa só e, depois de 12 anos advogando, resolvi que era hora de abraçar o fogão. E então fui estudar, aprimorar a técnica e todo este processo virou a Cozinha da Matilde.

Em que está trabalhando atualmente?
Além da demanda cotidiana da Cozinha da Matilde, ando, cada vez mais, pensando sobre comida, tenho lido e estudado. Estou também muito envolvida com o que produzo na pequena horta de casa e com a origem de cada ingrediente que uso, desde o produtor até chegar à minha cozinha. Também tenho estudado bastante sobre carnes e peixes. Logo começo um estágio em um açougue, estou vibrando.

Você é muito ligada em questões culturais, qual importância da relação cultura e comida?
Cultura e comida andam lado a lado. A melhor maneira de saber sobre um povo é experimentar sua comida. Estudando a comida aprendemos a geografia, história e costumes de cada país, cada região. Gosto de refletir sobre nossas escolhas alimentares, os alimentos nobres, os populares, as diferentes composições de sabores, as diferentes maneiras de preparar um mesmo ingrediente. Eu aprendo muito olhando a comida alheia. Quando penso em um prato, uma receita, uso todo este aprendizado, toda esta mescla cultural, gosto muito de brincar com isso e acredito ser um dos ingredientes que mais enriquecem a comida que faço. Gosto de apresentar para as pessoas outras culturas através da comida. É uma maneira de viajar pelo mundo sem sair de casa!

Quais são suas influências na cozinha?
Sou fã e gosto muito de alguns autores, cozinheiros e linhas de pensamento dentro da gastronomia, são eles que a maior parte das vezes responde aos meus questionamentos sobre comer e cozinhar. Mas minhas grandes referências são as cozinhas e cozinheiras/os da minha infância. Duas delas eu não posso deixar de falar: minha avó Maria e a mãe Landa (que adotei como segunda mãe). Elas são responsáveis pela minha paixão e toda a minha base como cozinheira. E foi incrível descobrir quando fui estudar gastronomia, que as duas, apesar de nunca terem feito nenhum curso, cozinhavam com a técnica perfeita.

Sua cozinha é feita de que?
Uma mistura de paixão, intuição, técnica e diversão - que não pode faltar nunca, em qualquer coisa que fazemos. Se não for prazeroso mude o canal!

O que te emociona na cozinha?
Além da própria comida, o que rola em volta da mesa. A cozinha me permite fazer parte dos momentos de descontração e alegria das pessoas. Quando elas chegam até aqui é para um momento especial, feliz. Fazer parte disso é o meu combustível.

Qual seu prato preferido?
Essa pergunta é piada interna na minha família. Eles brincam que meu prato preferido... são todos! Sou uma onívora convicta e super ‘bom garfo’, como de tudo e acho bom. Mas fazendo um esforço para falar em preferências, sou apaixonada pela comida brasileira e também adoro a asiática. Mas se quer mesmo me agradar, nada como uma galinha caipira com pequi! E se vier acompanhada de um refogadinho de jiló e uma saladinha de tomate...

O que lhe tira o apetite?
Preconceito. Qualquer pré-conceito. É o maior atraso para a vida da gente e para a vida do planeta.

Porque é uma moça feita com pimenta?
Amo pimenta! Tenho uma dedo-de-moça tatuada no braço (a mesma pimenta do logo da Cozinha), acho um alimento incrível, que além de saboroso, traz um monte de benefícios para a saúde. Entre outros, a capsaicina (componente ativo das pimentas) funciona como analgésico, antidepressivo, anti-séptico. E mais que aromatizar a comida, é um estado de espírito: a vida da gente tem que ter um toque de pimenta!

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O Zezé

Ontem fiz uma vista ao Bar do Zezé, que ficou conhecido através do Comida di Buteco. Aliás, o bar não existia antes disso, era uma mercearia com algumas mesas apenas. Já na primeira participação no CDB, o bar levou o primeiro lugar e não parou mais. Em 7 anos de participação, foi duas vezes o primeiro lugar, três o segundo, uma no terceiro e uma para o quarto lugar. É um sucesso, sem dúvidas. E também não tenho a intenção de discutir isso.
Em nossa conversa, entre causos e histórias, Zezé por algumas vezes ficou corado de emoção ao falar de sua vida. Já eu, fiquei uma única vez, mas não só corada, junto veio o arrepio, a palpitação e tudo mais que um momento de emoção permite.
O motivo disso tudo eu explico. Perguntei a Zezé qual era o segredo de tanto sucesso e tive como resposta o que já esperava: amor ao que faz, união da família, acreditar no sonho, etc. Fiquei satisfeita com a resposta, era o que queria ouvir. Adiante na prosa e Zezé me conta, com a maior naturalidade, como foi a relação com a fiel clientela quando a mercearia se transformou em bar.
“Meus clientes eram do tipo cadernetinha, anotavam tudo lá e vinham no princípio do mês acertar a conta. Pagavam a soma do mês anterior e anotavam novamente. Era sempre assim. Quando a mercearia acabou, eu não podia cobrar tudo deles, pois eles iam precisar de dinheiro para comprar em outro lugar. Menina, dinheiro de pobre é contado! Então, combinei com eles que iriam me pagar uma parte, o que pudessem. Assim, iam ter dinheiro para as compras daquele mês”
Eis a receita de sucesso dele. Com essa resposta não fiquei satisfeita, mas completamente encantada. Gente, descobri que Zezé é o cara. Gente, o mundo precisa de mais caras assim.

Vale uma visita ao bar e, principalmente, a Zezé
Rua Pinheiro Chagas, 406 - Barreiro de Baixo
Belo Horizonte - MG
Tel: (31) 3384 2444

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Coração de bananeira


Alguns chamam de coração de bananeira, outros, de umbigo de banana. Para quem não conhece, é fácil identificar. Sabe aquele cone roxo que fica no cacho de banana, é isso mesmo. Após descascá-lo, você descobre essa iguaria, um elemento que revela importante tradição na cultura de Minas.
Comum nas cidades de interior e fazendas, uma vez que as casas costumam ser rodeadas de bananeiras, o ingrediente era tido em abundância. Isso porque a fruta se adapta bem ao clima tropical e ao solo brasileiro. Contudo, atualmente, encontrar umbigo de banana nos grandes centros, é tarefa árdua.
Além dos problemas diversos em cultivar e comercializar o umbigo de banana, o extinto produto está caindo no esquecimento gustativo de nosso povo, perdendo sua valorização. O saboroso prato, que costuma acompanhar costelinha e lingüiça de porco, é uma combinação perfeita para resgatar as raízes de nossa culinária.