Pular para o conteúdo principal

Entrevistando: Letícia Massula

Feita de cultura, sentimento e pimenta, Letícia Massula, responsável pela Cozinha da Matilde, em São Paulo, presenteia o blog com sua participação nesta entrevista. Não preciso me alongar, pois suas respostas dizem tudo. Saboreie...

Você tem outras atividades, quando percebeu que a gastronomia faria parte de sua vida?
O que eu me pergunto até hoje é porque que fui fazer direito e ser advogada, rsrsrs. A verdade é que, apesar da gastronomia estar em minha vida desde que me entendo por gente (e talvez por isso mesmo), quando pensei em uma profissão, pensei em algo tradicional e não na cozinha. Cozinhar para mim sempre foi uma atividade cotidiana, natural, eu não enxergava como profissão e sim como uma habilidade a ser compartilhada com os amigos. Até que me dei conta que a vida é muito longa para a gente fazer uma coisa só e, depois de 12 anos advogando, resolvi que era hora de abraçar o fogão. E então fui estudar, aprimorar a técnica e todo este processo virou a Cozinha da Matilde.

Em que está trabalhando atualmente?
Além da demanda cotidiana da Cozinha da Matilde, ando, cada vez mais, pensando sobre comida, tenho lido e estudado. Estou também muito envolvida com o que produzo na pequena horta de casa e com a origem de cada ingrediente que uso, desde o produtor até chegar à minha cozinha. Também tenho estudado bastante sobre carnes e peixes. Logo começo um estágio em um açougue, estou vibrando.

Você é muito ligada em questões culturais, qual importância da relação cultura e comida?
Cultura e comida andam lado a lado. A melhor maneira de saber sobre um povo é experimentar sua comida. Estudando a comida aprendemos a geografia, história e costumes de cada país, cada região. Gosto de refletir sobre nossas escolhas alimentares, os alimentos nobres, os populares, as diferentes composições de sabores, as diferentes maneiras de preparar um mesmo ingrediente. Eu aprendo muito olhando a comida alheia. Quando penso em um prato, uma receita, uso todo este aprendizado, toda esta mescla cultural, gosto muito de brincar com isso e acredito ser um dos ingredientes que mais enriquecem a comida que faço. Gosto de apresentar para as pessoas outras culturas através da comida. É uma maneira de viajar pelo mundo sem sair de casa!

Quais são suas influências na cozinha?
Sou fã e gosto muito de alguns autores, cozinheiros e linhas de pensamento dentro da gastronomia, são eles que a maior parte das vezes responde aos meus questionamentos sobre comer e cozinhar. Mas minhas grandes referências são as cozinhas e cozinheiras/os da minha infância. Duas delas eu não posso deixar de falar: minha avó Maria e a mãe Landa (que adotei como segunda mãe). Elas são responsáveis pela minha paixão e toda a minha base como cozinheira. E foi incrível descobrir quando fui estudar gastronomia, que as duas, apesar de nunca terem feito nenhum curso, cozinhavam com a técnica perfeita.

Sua cozinha é feita de que?
Uma mistura de paixão, intuição, técnica e diversão - que não pode faltar nunca, em qualquer coisa que fazemos. Se não for prazeroso mude o canal!

O que te emociona na cozinha?
Além da própria comida, o que rola em volta da mesa. A cozinha me permite fazer parte dos momentos de descontração e alegria das pessoas. Quando elas chegam até aqui é para um momento especial, feliz. Fazer parte disso é o meu combustível.

Qual seu prato preferido?
Essa pergunta é piada interna na minha família. Eles brincam que meu prato preferido... são todos! Sou uma onívora convicta e super ‘bom garfo’, como de tudo e acho bom. Mas fazendo um esforço para falar em preferências, sou apaixonada pela comida brasileira e também adoro a asiática. Mas se quer mesmo me agradar, nada como uma galinha caipira com pequi! E se vier acompanhada de um refogadinho de jiló e uma saladinha de tomate...

O que lhe tira o apetite?
Preconceito. Qualquer pré-conceito. É o maior atraso para a vida da gente e para a vida do planeta.

Porque é uma moça feita com pimenta?
Amo pimenta! Tenho uma dedo-de-moça tatuada no braço (a mesma pimenta do logo da Cozinha), acho um alimento incrível, que além de saboroso, traz um monte de benefícios para a saúde. Entre outros, a capsaicina (componente ativo das pimentas) funciona como analgésico, antidepressivo, anti-séptico. E mais que aromatizar a comida, é um estado de espírito: a vida da gente tem que ter um toque de pimenta!

Comentários

Rose disse…
Parabéns pelo blog e pela entrevista...já estou te seguindo.
Bjinhus!!!

Postagens mais visitadas deste blog

Assa peixe em Sabará

No final de novembro do ano passado estive em Sabará, bem pertinho da capital mineira, para participar do 27º Festival da Jabuticaba. Na época estava em uma correria e acabei não falando uma linha sobre o assunto aqui no blog. E agora vasculhando alguns arquivos achei um material bacana, receitas e dicas que vale contar para vocês. Além de servir de inspiração para participar do próximo festival, a cidade merece ser visitada sempre, pois os produtores artesanais, restaurantes e cozinheiros estão preparados para receber o ano todo. Para começar, preciso contar a minha maior surpresa por lá, o assa peixe frito. É feito pelo cozinheiro Manoel Ferreira, que trabalha no restaurante do Parque Quinta dos Cristais . Ele conta que aprendeu a cozinhar com a mãe, que o ensinou não só o ofício, mas também o prazer em degustar e identificar os sabores presentes em cada garfada. Para quem não conhece (assim como eu não conhecia), o assa peixe é uma urtiga, muito usada como planta medici...

Dona Conceição

O texto de hoje não é uma indicação do novo restaurante da cidade. Muito menos uma receita imperdível para o jantar de logo mais. É sobre a responsável por minha paixão pela cozinha, Dona Conceição. Hoje ela completa 86 bem vividos anos e tenho a honra de tê-la como exemplo há 32. Vovó representa para mim duas importantes bandeiras: cozinhar com amor e a força da mulher. Pode parecer até um pouco contraditório colocar esses assuntos juntos, mas não é. Apesar dela ter cozinhado muito por imposição, o que ela me ensinou foi o ato de cozinhar por prazer. Me ensinou que eu poderia fazer isso por gostar e não por ser obrigada. Acho que ela conseguiu, com enorme sabedoria, extrair dos tachos de comida para mais de cinquenta pessoas o que há de mais belo na culinária: doar-se através da comida. Ela pilava o próprio arroz e não sentiu só a dor nos braços com o esforço, mas a gratidão por ter o alimento em casa. Fazia seus queijos, moldava em antigas formas de madeira, deixava o tempo...

Lenda do bacuri

Outra lenda interessante é sobre a origem do bacuri. Dizem que, certo dia, na floresta, apareceu a cabeça de um índio caxinauá, que havia sido degolado por um de seus companheiros. A cabeça aterrorizava a tribo com exigências que deveriam ser cumpridas para evitar que não lhes fosse tirada a vida. Todos deviam buscar, na floresta, um fruto amarelo escuro e manchado, com casca dura e uma polpa deliciosa, vindo de uma árvore cheia de flores avermelhadas. Os índios obedeceram às ordens por muito tempo até que um dia alguém resolveu experimentar o fruto, sendo seguido por todos os outros índios. A cabeça ficou muito brava e se transformou na Lua. Depois disso, sempre que comiam a fruta, davam as costas para Lua.